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O INFERNO DE DANTE É AQUI . PDF Imprimir
Escrito por Nicéas Romeo Zanchett   
Qua, 08 de Outubro de 2008 14:35

 FAVELA -NOSSO VISUAL URBANÍSTICO

O INFERNO DE DANTE É AQUI !

O poeta florentino Dante Alighieri nasceu em maio de 1265 e morreu de malária em 13 de setembro de 1321.

A Florença de Dante era uma cidade tomada pelo conflito entre brancos e negros. Os bancos eram da burguesia local, constituida, principalmente por banqueiros e comerciantes cuja única preocupação era ganhar dinheiro. Os palacetes dos ricos eram construidos de forma prática, onde a estética dava lugar aos seus objetivos de acumular fortunas. No andar térreo ficavam as lojas para o comércio; no alto, as torres e bastiões para a defesa. Tão logo os chefes de uma facção política eram banidos, os adversários lhes desmantelavam as casas. Florença era uma cidade em que não havia lugar para gentilezas, onde todos viviam sob a inquietação das ciladas e violências. Os negros eram a classe pobre e com eles se aliavam os trabalhadores mais humildes e os restos da antiga aristocracia feudal que juntos compartilhavam o ódio pelos prósperos burgueses das lojas, dos bancos e das incipientes indústrias. As casas ficavam amontoadas e comprimidas entre si. As ruas eram estreitas e mal cheirosas com porcos e galinhas remexendo o lixo jogado pelos moradores, à procura de comida. A cidade estava em premanente estado de escuridão: a noite não havia iluminação pública e de dia a sombra das casas alinhadas e coladas entre si impediam a luz solar. Quase não havia espaço livre, pois todos eram ocupados por moradias que mais pareciam fortalezas improvisadas.

Apesar das constantes discódias, Florença era uma cidade próspera e o dinheiro circulava com abundância. As rixas entre as duas facções eram constantes e a violência fazia parte da vida dos moradores.

O início do século XIV foi marcado pelas constantes lutas pelo poder entre as famílias tradicionais. Todos os cargos públicos ficavam à mercê dos interesses políticos que geravam corrupção, suborno, peculato e gastos irregulares para garantir a permanência no poder.

Embora apaixonado pela sua adorada Beatriz, em 9 de fevereiro de 1277, Dante, aos nove anos, casou-se com Gemma Donati, de mesma idade e de poderosa família nobre que lhe trousse grande dote de 200 pequenos florins. A precocidade era parte dos costumes da época que fazia do casamento uma espécie de aliança entre famílias.

Foi neste clima de violência e insegurânça que Dante viveu e produziu uma das mais célebres obras: A "Comédia", que em 1555 recebeu o aditivo de "Divina", passando então a chamar-se "A Divina Comédia". É um poema de viés épico e teológico da literatura mundial. O início de sua composição deu-se por volta de 1307 e foi concluido pouco antes de sua morte em 1321.

Buscando na história, podemos fazer um paralelo do que está acontecendo em nossos dias urbanos.

Nossas cidades estão tomadas por favelas e seus habitantes vivem em constante clima de terror e medo. Os governantes perderam o controle. Estamos todos em um mar tempestuoso a caminho de um naufrágio iminente. Nossas estruturas representativas pordem prestígio a cada dia. Os parâmetros adotados nas últimas décadas são fórmulas para capturar o espaço público e garantir poder e enriquecimento ilícito. As estruturas de contestação social ocupam as ruas e estradas apenas para defender seus interesses pessoais. Nos partidos, a oposição se molda de acordo com os interesses individuais. O regime federativo do país está contaminado pela banda podre e infiltrado pelas mais diversas formas de criminosos corruptos e corruptores.

Durante muitos anos assistimos pacientemente a migração de brasileiros do campo para as cidades. As periferias e morros foram silenciosamente sendo ocupados sem nenhum critério de ordenação urbanística. Aos poucos as favelas foram tomando dimensões megalíticas sob os olhos omissos das autoridades. Em cada comunidade surgiram novas formas de poder com leis próprias. As criânças são educadas de acordo com as leis locais e até aprendem admirar o crime como a melhor forma de vencer na vida.

A estrutura governamental de segurança pública está dividida entre o bem e o mal, dando surgimento a organizações paramilitares "milícias" que fogem ao controle das próprias instituições a que pertencem.

Verdadeiramente, não conhecemos a vida na favela. Ali parece ter surgido uma nova classe social que se alfabetiza no analfabetismo das ruas e vielas com esgoto a céu aberto. O crime é a lei, o líder é o mais cruel e a miséria é estado permanente de viver.

O ideal de governo verdadeiramente representativo seria a consolidação de lideranças nascidas no seio dos partidos, mas um partido não pode ser simbolizado por um único personagem, forjado no calor de uma conjuntura social adversa que, geralmente, acaba em atitudes ditatoriais como as que estamos assistindo em vários países da América Latina.

O que vemos é ausência de uma vontade política que atraia e incorpore a verdadeira indignação e descrença estampada na cara do cidadão que paga impostos e mantém as estruturas.

Nossa paralítica burocracia e falta de vontade política impedem medidas que possam criar os mecanismos necessários para atualizar as leis e evitar as impunidades. O legislativo acomoda-se sob o véu da imunidade parlamentar. Fala muito, mas pouco faz. O judiciário aplica leis antigas que impedem punições. Os crimes são cometidos, alguns julgados e seus autores, mesmo condenados, continúam soltos. Os presídios estão cheios de "ladrões de galinha" enquanto os grandes criminosos estão livres e praticando suas barbáries sem que nada seja feito.

Por tudo isto, aqui é o Inferno de Dante.

"DEIXAI TODA A ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS!".

É este o Brasil que queremos deixar para os nossos filhos?

Nicéas Romeo Zanchett- artista plástico

http://www.artmajeur.com/niceasromeozanchett

http://superpopulacao.spaceblog.com.br

 

 

Comentários (3)add comment

Fabby de Lima said:

0
...
Caro, amigo

Infelizmente é isso que assistimos de camarote.
Seu texto tem tudo a ver.
O trecho em que diz "nas prisões só existem ladrões de galinhas".
Infelizmente é a mais pura verdade. Não precisamos ir longe não! Não ver o caso Daniel Duque, assassinado por um segurança de uma promotora. E ainda dizem que é dor de mãe! Dor de mãe sim! Pois ela perdeu o filho! Enquanto o assassino, foi absolvido. Não é esse Brassil que quero para os meus filhos!
E nem para mim. Não é porque a violência está estampada aí fora para todo mundo ver! Que eu vou me acostumar com ela.
Seu texto ficou belíssimo! Fazendo a comparação do passado com o presente.
Bjs
 
outubro 09, 2008
Votos: -1

Cris Perônico said:

Cris Perônico
...
O Inferno de Dante é aqui no tempo presente do individuo, no cenário mental que concretiza-se no real e tátil da fragilidade humana.

Estou amando o que escreve, informativo, comparativo e reflexivo!

Obrigada por compartilhar!

Abraço,
Cris
 
outubro 19, 2008
Votos: +0

Nicéas Romeo Zanchett said:

Nicéas Romeo Zanchett
O DESCONTROLE DO ESTADO
Ao estado pertence a responsabilidade pela segurança pública. Os muros que estão querendo construir no entorno das favelas do Rio de Janeiro é uma forma de segregação social. Ao que tudo indica, foi uma promessa de campanha que precisa ser cumprida. O povo sabe que o estado perdeu o controle, mas isto não é forma de resolver os problemas.
Ainda bem que em 2010 teremos eleições para governador.
Nicéas Romeo Zanchett
 
abril 29, 2009 | url
Votos: -1

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