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Escrito por Nicéas Romeo Zanchett   
Qui, 26 de Março de 2009 19:27

                                     

UM MILHÃO DE MORADIAS - CARTA DE INTENÇÕES

                                                   Rio de Janeiro 26.03.2009

Quando ouvi esta notícia pensei que fossem casas subsidiadas para pobres. Como sou ingênuo, acreditei. Seria bom demais para ser verdade.

Hoje, ao ouvir a entrevista que a Ministra Dilma Russef deu ao Sardenberg na Radio CBN  compreendi que não se trata de um programa habitacional e sim de mais uma propaganda de habitação. 

Vejamos os fatos que precisam ser considerados:

Primeiro - O tal programa não tem data definida para sua conclusão, portanto não é programa habitacional e sim uma carta de intenções. É um projeto que qualquer governador mesmo sem dinheiro pode fazer, pois não precisa construir é só prometer e deixar a execução para a próxima gestão

Segundo - Não é programa para pobres e sim para a classe média.                 Ora, se 91 % do déficit habitacional está na faixa até tres salários mínimos é esta a classe que deveria ser atendida com subsídios. As pessoas que estão acima de cinco salários mínimos podem facilmente recorrer ao sistema do FGTS. O que se observa nitidamente é que os marajás palacianos perderam a noção do que é baixa renda. Estão acostumados a conviver com garagistas do palácio que ganham dez mil por mes e ficam imaginando que dez salários são de baixa renda. - Acordem, aqui não é a Suiça. Estamos num país pobre e nem todos os brasileiros trabalham no governo ou são apadrinhados de políticos. Uma pessoa que mora no interior do Brasil e ganha dez salários não pode ser considerada carente.

Terceiro - Grande parte da população de baixa renda ficará fora do programa porque esta desempregada ou trabalha na informalidade e é justamente nesta classe que está o maior problema habitacional do país.

Quarto - Onde serão construidas as casas? - Este é um problema muito sério que deve levar em conta não apenas a moradia, mas também o acesso ao trabalho. Grandes cidades como o Rio deJaneiro e São Paulo -(citando apenas como exemplo)-, o trânsito é péssimo e pode agravar-se. Não adianta construir casas longe do trabalho porque as pessoas, mesmo adquirindo moradia qualificada, continuarão morando em favelas que ficam perto ou tem fácil acesso ao local de trabalho.

Quinto - O problema da concentração de moradias. - A experiência do antigo BNH nos mostra que muitos conjuntos habitacionais se transformaram em problemas de segurança pública. Estão dominados pelo tráfico ou por milicianos. É preciso levar em conta o problema de segurança para que os locais não se transformem em "guetos" onde os moradores viram reféns de quadrilhas dominadoras. A cidade do Rio de Janeiro tem uma grande experiência neste sentido. Se não houver um bom planejamento será uma tragédia anunciada.

Sexto - Muitas construtoras estão aplaudindo a idéia e dizem que até já tem até terreno para as construções. - Será verdade? Será que elas estão dispostas a ceder seus valorizados terrenos para clientes de três salários mínimos? - Duvido muito! Elas irão priorizar clientes com maior poder aquisitivo, deixando de lado os verdadeiros necessitados. É muito natural que estejam aplaudindo, pois estamos no início de uma grande crise financeira que certamente levará muitas construtoras ao fechamento ou à falência. O suado dinheirinho do FGTS e dos nossos sufocantes impostos serão a garantia de alívio e adiamento destas situações.

Sétimo - Como será a seleção dos candidatos a moradia subsidiada? - Este é um problema que não será fácil solucionar, pois vivemos num país de corrupção em todas as areas. As pessoas desta faixa salarial -(até dez salários mínimos)- podem ter moradia própria construida irregularmente, sem registro e, assim sendo, não haverá parâmetro para comprovar, uma vez que a fonte seria o RGI. Certamente haverá corrupçao e muita gente que não precisa irá adquirir imóveis subsidiados para alugá-los. Outro problema sério é a venda de promessas em troca de votos que acontecerá nos municípios.

Oitavo - O problema de obras sem conclusão.                                                         Estamos no início de uma gravíssima crise mundial e ninguém sabe sobre a verdadeira saúde financeira das emprenteiras. Este é um fato que sempre aconteceu no passado e é preciso ter muito cuidado para que não venhamos a ter milhares de conjuntos habitacionais com obras inacabadas.

Décima - Fazer um projeto é muito fácil. O papel aceita tudo. A grande dificuldade é executá-lo para que não se transforme em mais um imPAC. - No próximo ano haverá eleições. Será que o novo governo estará disposto a dar continuidade a um programa nitidamente eleitoreiro? - Será que o nosso atual presidente não está querendo deixar um presente de grego para seu sucessor?

O momento não me parece nada oportuno para um programa habitacional  sério.

Nicéas Romeo Zanchett

CASA PRÓPRIA- VERDADE E UTOPIA

http://www.textolivre.com.br/artigos/9480-casa-propria-verdade-e-utopia

http://casaecologica-comoconstruir.spaceblog.com.br

 

Comentários (2)add comment

João Maurício Alexandre da Silva Sobral said:

João Maurício Alexandre da Silva Sobral
Você me faz refletir bastante!
Seus pensamentos são uma base forte para saber mais... Muito obrigado!
 
março 26, 2009
Votos: +0

Nicéas Romeo Zanchett said:

Nicéas Romeo Zanchett
...
O verdadeiro caminho para a moradia popular é facilitar o acesso à terra. O lei federal de 1979 permite legalmente lotes populares com apenas 125 m2. As cidades brasileiras estão sendo construidas irregularmente e ninguém investe em lotes populares. É preciso que as prefeituras façam elas mesmas os loteamentos para baixa renda. Seriam criados bairros populares e as pessoas subsidiadas teriam acesso a um lote legalizado. Dessa forma a construção da casa seria facilmente financiada pela Caixa Econômica e cada morador construiria a sua sob orientação das prefeituras.
Neste sistema é importante criar corredores exclusivos de ônibus ligando o novo bairro à pontos importantes da cidade que facilitariam o acesso ao local de trabalho.
Também é importante que o novo bairro tenha atrativos como escolas,creches, delegacias, quadras esportivas, piscina e club municipal, além de um comércio legalizado. Seria uma forma simples e realista para que as cidades voltassem a ser construidas legalmente.
Fica aí a sugestão para prefeitos e governadores que sejam realistas e não demagogos, vendedores de ilusões e criadores de projetos eleitoreiros.
Que tal pensar sobre isto Sr.Governador de São Paulo José Serra?
Nicéas Romeo Zanchett
 
março 31, 2009 | url
Votos: -2

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