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um sonho, várias estórias, um delírio... PDF Imprimir
Escrito por Ricardo Macedo dos Santos   
Seg, 26 de Outubro de 2009 21:08

Sonhei que escrevia este texto à mão. E notei que o papel me olhava saudoso, com vontade de introduzir modificações ao que eu ia escrevendo, tornando a escrita mais enxuta, trocando frases, excluindo outras, pondo pontos e encerrando sentenças a despeito de meus protestos. Comecei então a riscar palavras, inserindo outras com o fito de dar mais organização às minhas verdadeiras idéias. O papel era um verdadeiro déspota e se revoltara contra mim. De repente, em meio ao sonho, releio tudo o que “escrevi”. Então me veio à mente lembranças dos lápis e cadernos que meu pai comprava na extinta Casa Matos. Eu adorava tê-los comigo, acarinhando-os, fazendo pontas que sempre quebravam. Fazia extensas anotações, escrevia em diários que hoje não sei mais por onde andam. Era tudo feito artesanalmente. Hoje o meu Word substitui aquele agradável esforço. Quando não gostava do texto eu não apagava, eu simplesmente riscava o que houvera escrito. Sempre detestei usar borrachas. Chegava a ponto de extrair a página do caderno, tendo escrito poucas linhas. Quem faz isso hoje? Mas meu sonho me trazia à luz tudo aquilo que vivi. Lembro-me que a quantidade de texto que defenestrava era superior ao que eu conseguia aproveitar. Às vezes, as idéias que mais abandonamos são as que fazem a história desconhecida da mente humana. Quem sabe que se publicadas fossem não pudessem influenciar outras pessoas, outros gostos, outras percepções...?Mas foram deletadas, foram excluídas, foram abandonadas... Sinto falta hoje dessa luta entre mim e o rabisco, entre a escrita definitiva sujeito a erros e a borrões, a caneta tinteiro que falhava e que manchava nossos bolsos. Tenho saudade de minha caneta Parker 51 e da tinta Parker Quink. Hoje tudo fica limpinho e os erros de português ou a falta de letras ou palavras são regularizados por um corretor ortográfico do próprio Word. Prossigo sonhando o que a mente concede de imagens e ilusões. Penso em escrever sobre algum fim-de-semana inventando coisas, forjando temperaturas, viajando sem sair do lugar... Quem sabe, escrever um conto... Os personagens seriam fantasmas que conversam sobre a vida pífia dos vivos que tornam sua existência inútil. E o texto trataria reflexões sobre os gestos, as preocupações existenciais dos pobres viventes, seus objetivos de vida e suas inúteis preocupações. Começo a escrever, mas as idéias ficam embotadas diante de tanta realidade encantada pelo sonho. “Os fantasmas” não vão adiante, pois teimam em destapar segredos, sem saber que os sonhos são reservas de privacidade que somente são reveladas pelos próprios sonhadores... Depois penso em escrever uma tragédia. Queria escrever nos moldes de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare. Mas decidiria inventar e ir além. Romeu seria um homossexual assumido, que chegava ao balcão e Júlio, seu apaixonado, querendo subir pelo famoso cipó. Entretanto, creio que não gostaria de magoar shakespereanos de plantão que, obviamente, me acusariam de herético. Ocorreu-me também me distrair com um poema sem rima, sem métrica, repetindo palavras aleatoriamente. Não teria um fio condutor, e seriam versos escritos a esmo, que iriam caindo lentamente um após outro até chegar à incompreensão total. Sei que meus detratores me xingariam de louco, e me alcunhariam também de herético. De repente, vejo-me numa encruzilhada. O que então escrever? Uma crônica abusada, analisando jocosamente a nossa incapacidade de vivermos de forma simples, ordenada ou um texto descompromissado com a incompetência de nossas loucuras diárias? Resolvi então ir contando meu sonho, trazendo à superfície as vicissitudes que a carne nos apronta querendo ressaltar em nós o que temos de mais pérfido, de mais incongruente... O sonho é o próprio estado onírico inventado pelos desejos enganosos de nosso corpo. Assim será então meu texto: cheio de vontades e equívocos, aqueles com que a manhã nos acena e a noite, que fecha nossos olhos.

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