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Ofélia ou a Morte de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 100x140cm, coleção Fernando Carrieri, São Paulo, SP, Brasil
Republico aqui, agora, a carta da Lucia Welt que quando postada na página da Alma Welt no Recanto das Letras em 21/01/2007, produziu aquele imenso escândalo que culminou com a gloriosa expulsão do Guilherme e da Alma daquele portal, cinco dias depois da postagem, em meio à furia dos hipócritas e invejosos. Os grandes personagens existem para serem cultuados, e os personagens que são ao mesmo tempo grandes autores com obra realizada e palpável, merecem admiração e reverência duplicadas. Lembrem-se das palavras do grande poeta-filósofo do romantismo alemão, Novalis: " A Poesia é o autêntico real absoluto. Quando mais poético mais verdadeiro."
Eis a carta:
Guilherme A tragédia abateu-se sobre a nossa casa. Alma está morta. Minha pobre irmã matou-se por volta do meio dia de hoje. Esperaram-na para o almoço, e como ela não chegava de suas andanças todos começaram a ficar inquietos, pois ela andava esquisita, novamente, nos últimos dias. Rodo, a doutora Jensen, e Matilde, saíram para procurá-la e percorreram os lugares preferidos dela, o quiosque do jardim, o pomar, o bosque, e até a pradaria em torno da casa. Afinal foram até a cascata. Ali, encontraram o seu vestido branco, sobre a alta margem de pedra do poço, ou piscina da cascata. Ali, pode-se ver de cima a superfície cristalina da piscina natural formada pelas águas que caem na cabeceira do poço, único ponto mais tumultuado. Rodo num ponto mais alto avistou o corpo nu muito branco, de minha irmã, a poucos metros do fundo. E mergulhando retirou uma corda que a prendia a uma pesada pedra, pelo pescoço, para que não subisse. Ele a retirou das águas, gritando, gritando seu nome, em desespero. Ele a colocou na margem e tentou fazer uma respiração boca a boca, mas que era mais um beijo trágico, pois ele desmaiou de dor sobre ela. Ao voltar a si, estava como louco, e está assim até agora, num tal sofrimento, que teme-se pela sua vida. Galdério, quase catatônico, de maneira automática e instintiva, paternalmente como costumava fazer quando Alma era pequena ao tirá-la adormecida de sua charrete, pegou seu corpo como estava e veio com ela nua nos seus braços andando pela pradaria em direção ao casarão enquanto a noticia corria, até entrar no salão e depositá-la sobre a grande mesa de jantar. Tudo isso me foi contado por Matilde ao telefone, em meio a um choro convulsivo. Deixei as crianças aos cuidados de Alícia, sem contar a elas o que e estava acontecendo, peguei o carro e dirigi em disparada até a estância. Aqui encontrei minha irmã posta ainda nua sobre a grande mesa da sala. Seu corpo tão branco estava mais lívido ainda, o que fazia com que se parecesse com uma estátua do mais puro mármore de Carrara, tal a beleza que ainda conservava. Tinha somente uma marca circular, avermelhada, ao redor do seu longo pescoço de bailarina. As pessoas da estância, até os peões e suas mulheres já tinham invadido a sala e velavam com enorme reverência seu corpo nu deslumbrante. Nem mesmo a doutora Jensen, arrasada, pediu que a vestissem. Era como se todos sentíssemos que sua nudez era sagrada. Foi então que Matilde suspendeu tal desvario, irrompendo na sala com uma grande toalha de mesa de renda branca na mão, gritando: “Cubram a minha guria, seus ímpios! Afastem-se todos, cubram minha guria!” Começaram então as velas acesas, as novenas e o pranto coletivo. Agora o corpo de minha irmãzinha será levado até Santana do Livramento onde será cremado, como ela queria, para que suas cinzas sejam trazidas de volta e espalhadas ao vento, pelos locais da estância que ela mais amava: as flores do jardim, o pomar, o bosque, a campina ao redor do casarão e o vinhedo. Seu amado pampa será sua morada para sempre. Nossa estância, nossa terra nunca mais será a mesma. Não sei sequer se sobreviveremos à perda de nossa Alma amada, que era tão bela por dentro quanto por fora. Jamais haverá alguém como ela. Sentimo-nos perdidos, Guilherme, nosso amigo, que a descobriu e amou aí em São Paulo, e que tudo fez para que tivesse um livro seu publicado, e que tanto parece conhecer a alma e coração precioso de nossa irmã. O que mais temo agora é a reação de meus filhos e sobrinhos quando souberem do acontecido. Ai! Não sei o que será deles, que a amam tanto! Reze por nós, meu amigo, pois esta família precisa de orações, pois lágrimas já temos demais! Lucia
20/01/2007
sobre a obra
A carta da Lucia Welt que desencadeou o escândalo que culminou com a expulsão do Guilherme e da Alma do portal Recanto das Letras cinco dias depois de postada na página da Alma, no dia seguinte da morte da Poetisa.
Nota Passados meses da morte trágica de minha amada irmã, descobri este soneto que desvendou o sentido do insólito gesto de Galdério ao depositar o corpo marmóreo e deslumbrante da Alma sobre a mesa do nosso salão, iniciando o espantoso velório nu da Alma:
A leitoinha (de Alma Welt)
Galdério, prepara a tua charrete Que hoje não quero cavalgar! Leva-me como quando eu tinha sete E dormia no teu colo ao regressar
E me tomavas nos braços com candor Ao salão me transportando sem eu ver, Me punhas sobre a mesa por humor, Dizendo: “Hoje leitoinha vamos ter!”
E eu já despertada mas fingindo Não resistia e gargalhava afinal Sem ousar abrir os olhos, sensual,
Pois sentia o teu olhar tão inocente Percorrer meu pequeno corpo lindo Que queria ser tomado docemente...
09/07/2006
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Fiquei estarrecida ao descobrir este soneto na arca da Alma. Senti-me primeiramente perplexa, depois chorei muito. Ficou claro para mim, de repente, o gesto insólito, aparentemente incompreensível de Galdério ao pegar o corpo nu da Alma, quando de sua morte afogada no poço da cascata, e vir com ele nos braços como um sonâmbulo para depositá-la sobre a mesa do salão onde começou o seu espantoso velório nu, até ser interrompido pela irupção indignada de Matilde cobrindo-a com uma toalha de mesa, como um sudário. Vide o blog "Vida e Obra de Alma Welt":(www.almawelt.blogspot.com) onde publiquei, já há tempos, a carta que escrevi na ocasião fatídica, narrando as circunstâncias da morte e do velório de minha amada irmã. (Lucia Welt)
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