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MEMÓRIAS DE UM HOMEM INCOMPLETO - INOCENTE PDF Imprimir
Escrito por Adams Damas   
Ter, 17 de Novembro de 2009 15:38

Se Deus criou o homem e o homem criou as máquinas, será que elas têm o tanto direito à vida quanto os humanos? É essa a pergunta que Davi, um ser (humano) de vida artificial se faz depois que fugiu do laboratório onde foi criado. Ele só quer o que todo mundo procura: um lugar no mundo e viver. 

 

 

          /C-A-R-L-O-S H-Á Q-U-A-N-T-O T-E-M-P-O? O-N-D-E V-O-C-Ê E-S-T-Á?/

            /E-S-T-O-U E-S-C-O-N-D-I-D-O E-M U-M A-L-B-E-R-G-U-E/E V-O-C-Ê O-N-D-E E-S-T-Á-?/

            /N-O M-O-M-E-N-T-O N-U-M-A L-A-N T-E-C-L-A-N-D-O C-O-M V-O-C-Ê/O Q-U-E T-E-M F-E-I-T-O/T-E-M C-O-N-T-A-T-O C-O-M M-A-I-S A-L-G-U-É-M?/

            /N-Ã-O I-F-E-L-I-Z-M-E-N-T-E/E-S-T-O-U P-R-E-O-C-U-P-A-D-O/V-A-M-O-S N-O-S E-N-C-O-N-T-R-A-R E-M A-L-G-U-M L-U-G-A R.

/T-A-L-V-E-Z J-U-N-T-O-S P-O-S-S-A-M-O-S E-N-C-O-N-T-R-A-R O-S O-U-T-R-O-S/

            /C-O-N-C-O-R-D-O/M-E-U T-E-M-P-O A-Q-U-I E-S-T-Á A-C-A-B-A-N-D-O/V-O-U P-R-E-C-I-S-A-R D-E M-A-I-S C-R-É-D-I-T-O-S/T-E-N-T-E C-O-N-E-C-T-A-R-S-E N-A U-N-I-N-E-T A-M-A-N-H-Ã N-E-S-S-A M-E-S-M-A H-O-R-A/C-O-B-I-N-A-R-E-M-O-S T-U-D-O/

            /O-K/N-O-S V-E-M-O-S A-M-A-N-H-Ã/

            Me sinto mais aliviado agora que encontrei alguém. Ainda mais Carlos, meu colega de quarto. Enquanto saio da lan-house, penso em alguma maneira de conseguir mais créditos para voltar a falar com ele amanhã. Talvez se eu for ao asilo ver se precisam de mais serviços de jardinagem ou naquela escola de música, parece que sempre precisam de uma ajuda extra com a faxina. Caminhando pelos corredores do centro comercial meus pensamentos, de repente, são interrompidos por um... atropelamento? É um garoto, baixinho, aproximadamente uns nove, dez anos de idade – me ajuda moço, me ajuda! – diz ele desesperado e assustado. É quando vejo vindo logo atrás dele três seguranças apontando em minha direção e cada um armado com bastões de contenção. Por alguns segundos fico paralisado de medo também. Os seguranças troncudos, vestidos de preto me lembram muito os do CTN. Em algumas ocasiões, não mediam esforços para manter ordem no local.

            - Foge não ladrãozinho! Agora a gente te pega! – diz um deles pegando o menino pelo braço.

            - Não, me larga - grita o garoto chamando a atenção de todos ao redor - não deixa eles me levarem moço, por favor, eu não fiz nada!

            - Cala a boca, moleque! Fica quieto - diz outro segurança.

            - Esperem – resolvo intervir – o que este garoto fez de tão grave?

            - Ele é um ladrãozinho safado, senhor. Não se preocupe. A gente cuida disso.

            Os seguranças o levam apesar do garoto se debater e espernear pedido socorro. Na verdade, só incita mais violência por parte deles. Todos que estavam em volta olhando o garoto ser puxado e agredido voltam-se a sua caminhada como se nada de mais tivesse acontecido. A frieza que as pessoas demonstram em certas situações me assusta. Ninguém sequer esboçou qualquer reação para ajudar o menino. Nessas horas, me orgulho de dizer que não sou humano. Me recuso a pensar ou agir dessa forma. Resolvo ir atrás deles na esperança de convencê-los a brandar seu procedimento. Há maneiras menos agressivas de lidar com essas situações, ainda mais se tratando de uma criança.  Aperto o passo e consigo vê-los entrando num dos acessos ao estacionamento e abrindo uma porta numa das paredes no que se parece ser uma espécie de sala. Não consigo alcançá-los a tempo. Eles fecham a porta para mim. Mal encosto meu rosto contra ela e ouço um som abafado, parecendo um tapa. Grudo meu ouvido e consigo ouvir o que parece um choro de criança seguido de um “pare”. Não suporto mais, forço a porta com o pé e no que se abre vejo uma cena de extrema covardia: os três seguranças em cima do garoto! Enquanto um o segura, outro lhe aplica sucessivos tapas no rosto; o terceiro, o cutuca nas costas com o bastão de contenção. Com o barulho da porta sendo arrombada eles cessam, pelo menos por ora, com a brutalidade.

            - Sai daqui, cara, isso não é assunto seu! – diz um deles se dirigindo para mim.

            - SOLTE O MENINO! – grito enfático. Um deles vem pra cima de mim, eu o pego pelo colarinho e jogo-o contra a parede. Somente dessa forma os outros dois largam o menino e voltam sua atenção para mim. O que vem na frente tenta me atacar com o bastão. Tenta! Sou mais rápido! Seguro-o com a mão, giro e acerto uma cotovelada no seu nariz. Enquanto este cai no chão, com o rosto em sangue, o que vem atrás agarra meu braço e esmurra meu estômago. Chego a curvar mais pelo impacto do que por dor – que não sinto. Então, enquanto ele segura meu braço também agarro o dele e puxo com toda força fazendo com que minha cabeça choque-se contra sua testa. Com o terceiro e último segurança caído no chão, volto-me para o menino – vamos sair daqui – puxando-o pelo braço e correndo em disparada em direção a porta e a saída do centro comercial antes que alguém perceba meu impetuoso resgate e chame mais seguranças.

            Chegando à calçada, levo-o direto a estação de metrô mais próxima. É o transporte mais rápido que existe evitando assim qualquer tipo de perseguição. O menino não fala, mas parece concordar.

            - Qual é o seu nome? – pergunto já dentro do trem.

            - É Pedro moço – responde meio assustado ainda. Os hematomas no rosto lhe dão motivo para tal.

            - Por que o pegaram, Pedro?

            - Porque... - hesita um pouco, mas responde - eles acharam que eu peguei alguma coisa. Mas não peguei nada não moço! Sou inocente!

            - Me chame de Davi, Pedro e não se preocupe, está a salvo agora – tento acalmá-lo dizendo isso – Onde mora? Levarei você pra casa.

            - Moro no campo habitacional trinta e um, na zona norte.

            - Tudo bem, chegaremos logo.

            Cinco estações e mais três quarteirões a pé depois chegamos ao chamado CAHESP unidade trinta e um. Segundo o governo, o local servirá em breve para a construção de moradias para as pessoas de baixa renda. O que se vê na verdade, é um amontoado de barracos colados um ao outro quase sem nenhuma organização e muito menos limpeza. Lugares assim eram chamados de favelas no passado. É incrível como a humanidade evolui em alguns pontos, mas em outros parece simplesmente relutar quando o assunto envolve pessoas carentes.

            - É ali, Davi, o número vinte e dois - Pedro me mostra seu lar, modesto claro como todos os outros – daqui eu vou sozinho, Davi, obrigado – diz ele apressado.

            - Espere, Pedro, deixe-me levá-lo até a porta, talvez eu deva falar com seus pais.

            - Não, Davi, não precisa, eu... – ele é interrompido por um homem que sai de sua casa parecendo mais um bicho do que um ser humano: gordo, sujo, barbudo, roupas igualmente sujas e rasgadas, mais balbucia do que fala. Obviamente está bêbado.

            - Onde tu tava, muleque? Já falei pra num sai sem eu dexá! Vô te ensiná a não me obedece!

            Ele pega Pedro pela camisa e fecha sua mão em direção ao menino. Ele bateria em Pedro ali mesmo na rua com todos olhando. Bateria, porque eu não deixo! Quando ele vai desferir o soco no garoto eu seguro seu pulso, é quando ele nota minha presença.

            - O que que ... quem é... hu, ahhhhhh! – Não o deixo falar, aperto seu pulso e imediatamente ele larga Pedro, com mais força, faço-o ajoelhar-se diante de nós dois.

            - Faz isso não, Davi, por favor! – tento ignorar os apelos de Pedro, mas é difícil. A compaixão que ele demonstra pelo pai mesmo com o que estava prestes a fazer é comovente – ele é meu pai, Davi, solta ele – e o faço. Há muita gente em volta e eu não quero chamar mais atenção. Resolvo ir, mas não antes de deixar um aviso.

            - Eu voltarei depois para ver o menino, dirigindo-me ao pai ainda ajoelhado no chão, se eu ver ou perceber que ele foi agredido, você receberá o triplo, está entendido – ele resmunga algo intraduzível e baixa a cabeça. Espero mesmo que ele tenha entendido.

            - Ta tudo bem, Davi, pode ir.

            - Preciso mesmo ir, Pedro. Voltarei o mais rápido que puder.

            - Ta, Davi, obrigado – me despeço e na saída do campo habitacional dou uma última olhada para trás e vejo Pedro segurando seu pai pelo braço e o levando para casa. Sinto um certo arrependimento ao deixá-lo sozinho.

            Dois dias depois, volto para ver Pedro. Queria poder voltar antes, mas fiquei receoso com a atenção que chamei para mim tanto no centro comercial, quanto aqui. Com o resto dos meus créditos trago um presente para ele: um carrinho em miniatura. Não há muito destes por aí. Foi mesmo sorte tê-lo achado. Estou bem próximo da casa de Pedro quando vejo mais abaixo, a minha direita, pessoas correndo e um tumulto perto do que será no futuro uma praça. Não quero desviar meu caminho e volto-me para a casa do Pedro. É então que ouço alguém gritando: “É ELE SIM, É O PEDRINHO!” Mal posso acreditar! Será que é o mesmo Pedro? Fico em dúvida alguns segundos, se vou ou não ver. Decido ir, não há outra alternativa. Chego até onde está a multidão. Eles fazem um círculo e no meio tem um corpo. Um corpo pequeno para a idade penso eu, nove, dez anos, muito baixinho, mas já falava como um homem. Pedro, um garoto inocente, morto pelo quê, por quem? É claro que esta pergunta tem uma resposta. Eu avisei a ele. Se acontecesse algo, se ele fizesse algo... Isso não ficará em pune! Ele não matou apenas o filho, matou também as esperanças e os sonhos que este garoto tinha ou poderia ter. Não lhe deu a mínima chance. Eu também não darei. De repente, sinto uma espécie de aperto dentro de mim. Algo querendo sair. Sinto um líquido oleoso, amarelado, escorrer do meu olho esquerdo... Não pode ser! Eu posso chorar?! Esqueço um pouco isto e me volto para Pedro. Resolvo deixar meu presente ao seu lado. Exatamente como deveria ter sido e vou atrás do seu assassino. Tenho um palpite de onde ele possa estar. Há um bar em frente ao campo habitacional, atravessando a avenida. O lugar é pequeno, mas movimentado, há diversas mesas na entrada e nos fundos um balcão onde servem as bebidas. Vejo-o logo de cara, é fácil reconhecê-lo, está do mesmo jeito e com a mesma roupa. Chego a sentir pena. Aproximo e toco no seu ombro para chamar sua atenção.

            - O que que é que você quer?

            - Não se lembra de mim, eu o avisei.

            - Me avisou, avisou do quê mané, sai fora!

            Minha paciência se esgota. Puxo-o pela camisa e o jogo no chão. Ele se assusta e tenta se levantar, mas eu não deixo. Pego-o pela gola da camisa e lhe dou um soco, depois outro e mais outro...

            - Eu o avisei que se fizesse algo com Pedro você receberia o troco! POR QUE FEZ ISSO? POR QUE O MATOU? Era apenas uma criança! POR QUÊ?

            Não sei quanto tempo o esmurrei até que algumas pessoas do bar me segurassem e me afastassem dele.

            - DEIXE-ME, gritei, não viram o que ele fez, ele merece!

            Havia uns cinco ou seis em cima de mim. Eu estava transtornado. Não sei como consegui ouvir a voz da mulher que o atendia no bar, mas ainda bem eu ouvi, pois senão cometeria um grande erro.

            - Para moço, para – ela suplica – não foi ele, ele não matou Pedrinho!

            - O quê?! Como não foi ele? Ele bate no filho!

            - Bate sim, mas só quando tá bêbado. Ele nunca mataria o filho.

            - Mas então quem...

            - Foi o Tino! Ele é o traficante daqui. O Pedrinho era o fio dele e devia dinheiro. Não foi o pai moço, ele é inocente!

            Inocente! Quem de fato é inocente nesse mundo. Se um garoto que roubava e vendia drogas é inocente, se um pai negligente e alcoólatra é inocente, então não sei mais o que é inocência. Será que só eu sou ainda tão inocente, ou será que não mais? Eles me soltam, então começo a correr. Corro e fujo para longe. Longe destas pessoas, longe de Pedro, de tudo. Uma, duas horas depois percebo que por mais que eu corra não posso fugir de mim mesmo. Esta fúria que sinto, esta força dentro de mim, não é normal. Não foi a primeira vez e não será a última. Há apenas uma maneira de saber o que está realmente acontecendo comigo. Existe uma pessoa que pode me ajudar, mas é a última pessoa que eu procuraria. Infelizmente, não tenho escolha se eu não quiser machucar mais alguém. É isso, vou procurá-la e sei exatamente onde ela está. Carlos terá que esperar mais um pouco...

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