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Escrito por Juliana Ferreira   
Ter, 02 de Março de 2010 12:27

Criatura

 

   Sentada a espera de uma pessoa extremamente maravilhosa. O banco estava duro, mesmo assim a vontade era tanta que eu não me importava com tal incômodo. Também não me importava com o vento que persistia em tirar minha franja do lugar e muito menos com as pessoas que por ali passavam. Nada era mais preocupante do que o meu pensamento, nada mesmo. Fechei os olhos por um instante e me vi na mesma situação que outras vezes, e me perguntei: Cadê a mudança prometida? E, pela milésima vez, eu não sabia responder; não sabia, pois à vontade e a necessidade era muito maior do que qualquer promessa tola. Esperar não machuca, esperar é bom, é bom porque somente os pensamentos ficam ao seu lado, mas como eu disse: eu tenho medo dos meus pensamentos. Cada um que passava trazia em sua face uma mera semelhança daquela pessoa na qual eu esperava. Talvez eu estivesse meio alucinada, e estava enxergando “a criatura” nos “outros”, que bobeira.

   Sentada a espera de uma pessoa extremamente significativa, falo isso porque esta criatura fez parte do meu passado, e agora, apareceu novamente, e eu confesso que não entendo o motivo. No passado eu o queria, hoje eu não sei se quero. No passado eu sentia uma louca vontade de beijá-lo, hoje eu não sei se sinto essa vontade. Mas, quando penso naquele sorriso, eu o quero perto de mim, falando coisas, sei que são besteiras, mas pelo menos ele está ali. Sua boca se movimenta, seus olhos olham nos meus. E, eu posso prestar atenção nele, e não ao que ele me diz. Ele chegou, percebi que os olhos da criatura passeavam pelo meu corpo, e os meus olhos acompanhavam o compasso dele. Queria apenas que ele olhasse em meus olhos, pois se olhasse entenderia tudo, tudo mesmo. Ele se foi, e eu, Ah...eu fiquei ali, mais uma vez nas minhas loucuras e vontades, mais uma vez guerreando com meu coração e pedindo explicações para os meus sentimentos, mais uma vez senti vontade de chorar, de chorar mesmo, mas me segurei, me segurei e me segurei.

    No caminho para casa, debrucei meu rosto no vidro e segurei as lágrimas, segurei porque não queria chorar, não queria, mesmo. O caminho parecia longo, minha mente estava confusa e eu estava linda. Próximo ponto, desci. Caminhei até minha casa, passos lentos, cabeça longe e os olhos ardendo. Cheguei, abri a porta, entrei. Deixei a sandália pela sala, a bolsa pelo quarto e deitei na cama, e chorei, chorei feito criança, chorei feito gente grande, chorei feito eu mesma. Levantei-me, olhei no espelho e me vi; olhos vermelhos, maquiagem borrada, cabelo despenteado, e não me via mais linda. Engoli a saliva mais dolorosa de toda minha vida, a saliva por não ter pedido o que eu sempre quis. Peguei um prendedor, amarrei meus cabelos. Tirei meus brincos. Tirei o vestido. Tirei o coração. Sentei no sofá e me fiz um questionário, não revelarei as perguntas nas quais me fiz. São apenas minhas; ninguém precisa saber. Respondi algumas delas, as outras, não tive tempo de responder. Conseguia escutar a chuva, conseguia escutar o silêncio, conseguia escutar as batidas do meu coração. Respirei esperança, e expirei fé. Sinto a mudança em mim, a mudança que eu tanto esperei, a mudança de ser eu mesma, de ser a criatura que eu mesma projetei.

 

 

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