| Pelo buraco da fechadura |
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| Escrito por Rodrigo Della Santina |
| Ter, 16 de Março de 2010 01:59 |
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Como Dante, eu me encontrei, dia destes, numa selva. Mas diferente da sina daquele, ela não era escura, antes ensolarada e bonita, com árvores enormes de copas lindíssimas, palmeiras exuberantes, coqueiros magníficos, cachoeiras extraordinárias, lagos cristalinos, plantas aquáticas estonteantes, girassóis belíssimos, orquídeas, margaridas, rosas vermelhas e brancas, bem-te-vis, sabiás, joões-de-barro, tudo o que a natureza tem de melhor; montanhas gigantescas impunham-na sua imponência; e, como se Deus quisesse provar a todos que também podia ser artista, havia esculturas espalhadas por toda a selva. Ainda assim, eu estava receoso. Não lembrei de cara do fado dantesco, mas estar longe de minha casa, de minha costumeira vida, me deixava apreensivo. Não pensei muito no que deveria fazer, num primeiro momento, só cuidei ficar ali, parado, olhando tudo em meu redor, procurando, se havia, um lugar para me abrigar até eu achar um meio (ou um guia) de sair de lá. Avistei, muito estranhamente, uma porta prateada no meio de uma estrada de coqueiros. Aqui tive a certeza de que sonhava. Despertava em mim agora uma curiosidade: eu queria conhecer o que havia por trás daquela porta. E, como que movida por essa repentina mudança de minha vontade, uma voz soou em minha cabeça convidando-me a abri-la, a desfrutar de suas possibilidades. Dirigi-me a ela então; mas decidi não aceitar, de pronto, o convite. Já não tinha tanta certeza de que sonhava. Algo em mim dizia que todas as minhas antigas considerações acerca de mim mesmo, das coisas ao meu redor, estavam equivocadas; que tudo aquilo era uma oportunidade, uma nova chance de redenção. Redenção? Por que redenção? Não imaginava até o momento ter cometido nada contra Deus, ou contra a natureza, ou mesmo contra outras pessoas, excetuando umas discussõezinhas aqui e ali, uns arrazoamentos enérgicos e mesmo descortês dos meus direitos e de minhas certezas, mas nada que pudesse despertar a ira divina. Então, por que redenção? Olhei um momento ainda para os lados, procurando algum indício de armadilha, algo que me fizesse suspeitar de algum ludíbrio. Por cautela, resolvi olhar através do buraco da fechadura. E o que vi foi espantoso. Do outro lado não havia nada, isto é, não havia terras, montanhas, árvores, animais, nada que servisse à sobrevivência dos seres. Só tinha o espaço. No centro dele, sentado num trono feito de prata, olhando fixamente para mim, Deus; e em seu redor, orbitando-O, o planeta Terra. Nesse momento soube, não sei se por minha consciência ou por uma voz que miudamente me falava à mente, soube que tudo aquilo, as palmeiras, os coqueiros, o girassol, as rosas, os animais, a voz, tudo aquilo não se travava Dele, não pertencia a Ele, mas a mim; que o espaço e o planeta eram meus, eram minhas criações; que o próprio Deus era meu.
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