| Deuses 2 |
|
|
| Escrito por Rodrigo Della Santina |
| Qua, 13 de Janeiro de 2010 22:23 |
|
Um brinde a Baco e a Apolo! Há alguns dias terminei a novela tchekoviana da qual falei pra você, meu caro leitor, noutro texto. Uma boa novela. Um tapa na cara dos governantes de sua época (tanto que sofreu contratempos). Um retrato da vida social humana. Li-a em alguns dias, talvez uma semana, não me recordo bem. As horas em que passei lendo-a foram preciosas e gratificantes; e agora habituei-me a repetir isso. Pois nunca peguei de um livro assim que terminava um outro. Sempre esperava um pouco, uns dias, antes de retomar minhas leituras. E tenho gostado. Estou lendo agora um conto de Oscar Wilde intitulado “O crime de Lorde Arthur Savile”. Tem me parecido interessante, não tanto quanto os escritos de Tchékov, mas o suficiente para me proporcionar prazer. Do autor já li seu famigerado “O retrato de Dorian Gray”, que me causou grande impressão e arrebatou. Uma história interessante e instigante, mesmo para um garoto do primeiro ano de uma faculdade de letras que o lia para trabalhos de filosofia. Li também seu conto intitulado “O fantasma de Canterville”. Um ótimo conto. Engraçado, divertido, irônico. Li-o durante minha viagem à Fartura, quando ainda não morava aqui. Mas quero lhe deixar com umas palavras do seo Rilke escritas numa carta (registrada em seu livro “Cartas a um jovem poeta”, o qual também já terminei de ler e adorei) ao jovem poeta Franz Kappus endereçada de Roma e datada do dia 14 de maio de 1904, na qual fala de solidão, destino (ou ação própria, palavras minhas), Deus em sua onipresença, razão em oposição ao impulso, relacionamento conjugal e, acima de tudo, claro, amor. São palavras que nos fazem refletir. De todas as dez cartas que o livro contém, essa, que é a sétima, foi a que mais me arrebatou, assemelhando-se, em prazer, a uma degustação de um Periquita (vinho tinto português dos bons). E é dela que lhe tiro estas palavras: O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? [E aqui ele acaba com essa ideia de “alma-gêmea”]. O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe. (...) A fusão com o outro, a entrega de si, toda a espécie de comunhão não são para eles [os jovens]; (...) são algo de acabado para o qual, talvez, mal chegue atualmente a vida humana. Aí está o erro tão grave e freqüente dos jovens: eles — cuja natureza comporta o serem impacientes — atiram-se uns aos outros quando o amor desce sobre eles e derramam-se tais como são com seu desgoverno, sua desordem, sua confusão. Que acontecerá, pois? Que poderá fazer a vida desse montão de material estragado a que eles chamam sua comunhão e facilmente chamariam sua felicidade? Que futuro os espera? Cada um se perde por causa do outro e perde ao outro e a muitos outros que ainda queriam vir. Perde os longes e as possibilidades, troca o aproximar-se e o fugir de coisas silenciosas e cheias de sugestões por uma estéril perplexidade de onde nada de bom pode vir, a não ser um pouco de enjôo, desilusão e empobrecimento. Depois procuram salvar-se, agarrando-se a uma das muitas convenções que se oferecem como abrigos para todos nesse perigoso caminho. (...) Há nele (...) toda espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada a considerar a vida amorosa um prazer, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público. No entanto, muitos jovens (...) sentem o peso opressivo do erro cometido e gostariam de, à sua maneira, tornar vivedouro e fértil o estado de coisas a que se vêem reduzidos. (...) Mas como podem eles, que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem se distinguem, quer dizer, que nada mais possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada? Eles agem num desamparo comum e, ao quererem evitar com a maior boa vontade do mundo a convenção que lhes ocorre (como o casamento), vão dar em outra solução menos clamorosa mas de um convencionalismo não menos mortal. Eles não têm, de fato, senão convenções em redor de si.
Marcar como favorito
Enviar por email
Leituras: 135 Comentários (0)
![]() Escreva seu comentário
Voce precisa estar logado para postar um comentário. Por favor registre-se se caso não tenha uma conta
|



