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Sinto-me, existo, Raciocino, existo, Penso - logo existo PDF Imprimir
Escrito por Sergio Carneiro de Andrade   
Seg, 22 de Junho de 2009 20:38

Vejam que interessante isso: a Lei do Controle Emocional

(Como as emoções funcionam no mecanismo do cérebro?)

 *

            - Tudo bem com você?!

            - Tudo em paz, e contigo?! (este retorno de cumprimento pode ser expressado com tristeza, depressão, fraqueza, cansaço, raiva, e alegria e otimismo, jovialidade, etc.)

            - Opa, desculpe, pensei que estava tudo bem... (murchou afetado pela emoção de raiva do outro e pela sua expressão carrancuda e ressentida e rancorosa que de repente fez...)

            - E está, e daí, que você tem com isso!! (com mais raiva e azedume emocional...)

 *

Estar alinhado psiquicamente: sentir amor, alegria, prazer de viver, liberdade, leveza...

Estar desalinhado: desconforto emocional, medo, peso, rejeição, tristeza, depressão, pânico, mal-estar em estar em uma situação ou ambiente social que o desagrada, etc.

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            Na saudação acima há pensamentos, e nestes tanto há a parte racional como emotiva... Quando penso ao mesmo tempo estou raciocinando e sentindo. Logo no início da primeira parte do livro Inteligência Emotiva de Daniel Goleman tem-se essa realidade mostrada claramente...

            "Penso, logo existo"... Está expressão ou conclusão silogística de Descartes está errada, pensei um dia, raciocinei e me fui rebelando-me porque para o meu intelecto, pensar, compreender o meu existir, a primeira cousa ou conhecimento patente da autoconsciência seria "Sinto-me, logo existo"... Agora lendo este livro do Daniel veio-me um insight: Descartes estava sempre certo... O pensar envolve o sentir e o raciocinar, ambos processando-se nos circuitos neurais de modo simultâneo, e as emoções governando em vezes o controle emocional das ações, principalmente as de sobrevivência aprendidas..., isto é expresso em sátira de Erasmo de Rotterdam (Elogio da Loucura) que pelas palavras de Daniel Goleman seria assim: "Júpiter legou muito mais paixão que razão. Pôs duas tiranas furiosas em oposição ao solitário poder da Razão: a Ira e a Luxúria. Até onde a Razão prevalece contra as forças combinadas das duas, a vida do homem comum deixa bastante claro. A Razão faz a única coisa que pode e berra até ficar rouca, repetindo fórmulas de virtude, enquanto as outras duas a mandam para o diabo que a carregue, e tornam-se cada vez mais ruidosas e insultantes, até que por fim sua Governante se exaure, desiste e rende-se."

            Enfim, o Elogio da Loucura, de Rotterdam, diz assim: "Segundo a definição dos estóicos o sábio é aquele que vive de acordo com as regras da razão prescrita, e o louco, ao contrário, é o que se deixa arrastar ao sabor de suas paixões. Eis porque Júpiter, com receio de que a vida do homem se tornasse triste e infeliz, achou conveniente aumentar muito mais a dose das paixões que a da razão, de forma que a diferença entre ambas é pelo menos de um para vinte e quatro. Além disso, relegou a razão para um estreito cantinho da cabeça, deixando todo o resto do corpo presa das desordens e da confusão. Depois, ainda não satisfeito com isso, uniu Júpiter à razão, que está sozinha, duas fortíssimas paixões, que são como dois impetuosíssimos tiranos: uma é a Cólera, que domina o coração, centro das vísceras e fonte da vida; a outra é a Concupiscência [a Luxúria, a Lassidão, a Volúpia, os Desejos Carnais], que estende o seu império desde a mais tenra juventude até à idade mais madura. Quanto ao que pode a razão contra esses dois tiranos, demonstra-o bem a conduta normal dos homens. Prescreve os deveres da honestidade, grita contra os vícios a ponto de ficar rouca, e é tudo o que pode fazer [a Razão]; mas os vícios riem-se de sua rainha, gritam ainda mais forte e mais imperiosamente do que ela, até que a pobre soberana, não tendo mais fôlego, é constrangida a ceder e a concordar com os seus rivais."

            Sonhos narcísicos da juventude..., mas o corpo envelhece e o espírito sentirá falta dos prazeres da alma... Ao atravessar a avenida São João e avançar alguns metros, ali paramos e ficamos olhando aquela ação...

            Passando um senhor pela praça da igreja Paissandu estacou diante de faceira senhorinha que lhe fazia psius, em desejos de atenção, carência, ou intenções de dar e receber...

            Ela o olhando disse: - Vamos...?

            Ele, olhar paterno, pensando salvar mais uma alma para os prazeres do espírito, retornou, nestas palavras:

            - Se aceitares os conselhos do velho sábio, homem vivido, amigo que conheci outrora, o grande orador romano Cícero, não te arrependerás no futuro. Há delícias da orgia, no gozo e na volúpia ardentes. Um prazer de gozo gostoso insano, de busca desenfreada, insaciável; de volúpia gostosa insana sem senso; de gozo e de volúpia gostosos insanos, de perdição. E o soneto de padre Antônio Tomaz assim discorre esse amor já solto ao varejo, sem lar, sem família, sem um par, e sem as docilidades amenas da mente e do amor terno:

 

Verso e Reverso

(site http://lernosremendos.blogspot.com/2006/04/verso-e-reverso.html)

 

                                   Esta mulher de face escaveirada,

                                   que vês tremendo em ânsias de fadiga,

                                   estendendo a quem passa a mão mirrada,

                                   foi meretriz antes de ser mendiga.

 

                                   Fugiu-lhe breve nesta vida airada

                                   da mocidade a doce quadra amiga;

                                   e chegou a ser velha e desgraçada

                                   antes do tempo, a tanto o vício obriga!

 

                                   Ontem - de gozo e de volúpia ardente,

                                   fosse a quem fosse, dava à qualquer hora,

                                   o seio branco e o lábio sorridente.

 

                                   E hoje - triste sina - embalde chora!

                                   pedindo esmola àquela mesma gente

                                   que de seus beijos se fartara outrora!

 

            É de Cícero:    "Uma vez liberada a alma, se posso dizer, das obrigações da volúpia, da

                                   ambição, das rivalidades e das paixões de toda espécie, as pessoas têm

                                   o direito de se isolarem para viverem enfim, como se diz, 'consigo

                                   mesmas'! Se podemos nos alimentar de estudos e de conhecimentos,

                                   nada mais agradável que uma velhice tranqüila.

                                   (...) é porque amo a conversação que me aprazem as refeições

                                   prolongadas; (...) nesses banquetes, eu apreciava menos o prazer dos

                                   sentidos que a companhia de meus amigos e suas conversas."

                                    (Cícero, Saber Envelhecer)

 

            A nossa mente é um dicotomia emocional/racional de duas mentes - a mente racional e a mente emotiva, o coração e a cabeça, circuitos neurais distintos e semi-independentes interligados no cérebro cada qual produzindo o seu conhecimento e interagindo-se para compor o pensar... O raciocínio em geral gera uma conclusão lógica, verdadeira ou falsa. O sentir ou as emoções expressam-se por impulsos em geral de manifestação ilógica, intuitiva mas necessária à sobrevivência e equilíbrio situacional do indivíduo ou da espécie, ou da sua prole ou descendência. Quando penso estou ao mesmo tempo raciocinando e sentindo. Pela raiva tende-se a atacar ou lutar; pelo medo - fugir, escapar, esconder-se; e o amor atrai, é uma tendência emocional para ficar e saborear o momento mágico da amizade, carinho, carícias e afagos gentis, conversas soltas e agradáveis...

 *

 

                     SER (qualquer cousa viva ou não viva capaz de ter existência)

                       \

                        ENTE (ser que existe ou supomos existir, concreto ou abstrato)

                          /

                        Representação Simbólica de um Ente ou Ser existente

                          \

                      SIGNO

                      - Representação Sonora, Visual, Tátil, Gustativa ou Olfativa de uma idéia

                        (Significante, parte sensível, sensorial)

                         \

                          ------Significação

                         /

                       - Imagem Mental ou Idéia do ser (Significado, parte não-sensível)

 

            Entende-se por idéia a imagem mental de um ser: um homem, um triângulo, Deus.

            Conceito é a expressão verbal de uma idéia.

            Qualquer afirmação ou negação entre duas idéias ou conceitos é um juízo.

            Juízo de existência fala de entes. Juízo de valor fala das qualidades e valores dos entes.

            O enunciado verbal de um juízo é uma proposição ou premissa.

            Relacionar dois ou mais juízos para se chegar a um novo, por dedução (do geral ao particular) ou indução (do particular ao geral, generalizações, estereótipos), é o processo mental denominado raciocínio.

            Raciocinar ou produzir uma seqüência de raciocínios: o pensar.

            Pensamento: é o ato ou efeito de pensar, é o processo mental humano racional-emotivo que permite refletir (ver em si algo fora, ou si mesmo, e raciocinar sobre), julgar, realizar abstrações, análise (ver o todo em partes) e síntese (montar o quebra-cabeça, unir as partes para compreender o todo).

            A característica do homem é ter pensamento contínuo, e expressar pensamentos através de signos codificados em símbolos, sinais, em uma língua; e interagir, comunicar-se, por essa sua capacidade consciente de expressão: a linguagem humana.

            Símbolo: uma representação que dá a entender convencionalmente uma idéia ou ser.

            Sinal: representação com ligação direta ao fenômeno. Ex.: uma nuvem escura é sinal de chuva.

            Fenômeno: tudo o que é percebido pelos sentidos ou pela consciência.

 

            Segundo Martin Riegel, p.25, "em sentido mais geral, o vocábulo signo designa todo elemento perceptível que evoca outra coisa diferente dele mesmo".

 

            Para Hayakawa, p. 134, "o "objeto" da nossa experiência não é a "coisa em si", mas uma interação entre o nosso sistema nervoso e qualquer coisa que está fora dele". Cada ente no universo é único, todavia, cada ser pensante em experienciá-lo o tem em seu sistema nervoso, não o próprio mas uma imagem mental percebida com as nuances de cada mente, e expressado por significantes vários.

            Na p. 135, informa que "o "objeto" que vemos é uma abstração de nível mais baixo, mas ainda assim uma abstração". Porque deixa de lado na representação mental características concretas do ser real, ele hoje e ele amanhã já haverá modificações materiais no ser concreto. E, ainda na p. 135, "aprender linguaguem não é simplesmente aprender palavras: é, antes, relacionar corretamente nossas palavras às coisas e aos acontecimentos que elas representam". Isto é, o significante pode estar inadequadamente atado ao significado gerando uma significação incoerente ou deformada ou inexata do ser.

            Na p. 136, "o processo de abstrair é deixar características de fora, é uma comodidade mental indispensável".

 

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            Acrescento aqui o trabalho da Atividade da Unidade 2, pois tem a ver com essa prática referente à Teoria dos Signos:

 

1) Linguagem: é a faculdade ou capacidade animal ou humana da comunicação, da interação grupal ou social.

            Os animais também tem linguagem, mas a usam instintivamente, sem consciência; por exemplo, um cachorro pressentindo perigo não sabe que deve avisar ao dono, porém, o faz por instinto (não tem consciência), late por algo natural em si que o leva a latir pela sobrevivência, pela conservação, pela defesa do seu território.

            O homem usa a linguagem com consciência, sabe que pode usá-la e a usa com o fim desejado.

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2) Língua: é o idioma, o código lingüístico adotado em determinada comunidade, portanto, de caráter social para entendimento de seus membros e registro cultural das suas gerações.

Segundo Marcos Bagno, em Preconceito Lingüístico, p.13, é "a atividade lingüística real dos falantes em suas interações sociais".

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3) Fala: é a expressão de cada um, verbal ou não-verbal, a manifestação individual da língua incluindo gestos e movimentos das ãos, da cabeça, do corpo.

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4) Variante ou sotaque: é uma característica local ou regional (regionalismos) da língua. O baiano, o gaúcho, o paulista, o mineiro, o carioca, falam e usam a língua do seu jeito próprio, assim também quem vive na periferia da cidade sem muita instrução e quem mora na roça com o seu sotaque caipira puxando errrrresss ou uma pessoa da elite bem educada usam e falam a língua de maneiras diferentes. Entretanto, cada um desses se encontrando acabam se entendendo, compreendem-se apesar do sotaque e palavra ou outra desconhecida por ser de uso regional ou local. Uma novela da Globo, Record, Bandeirantes ou do SBT com os atores e atrizes pronunciando a variante paulista é entendida em todo o território nacional. A variante não precisa de tradução ou legenda para ser entendida na sua comunidade lingüística.

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5) Dialeto: é uma variação na língua dentro da comunidade onde é usada que a torna quase uma outra língua, ou seja, um dialeto usado em certa região não é entendido por pessoa falando outro dialeto, embora ambas falem a mesma língua; é o que acontece na Espanha onde há regiões que não entende o falar das outras. Ilustrando, uma novela da Globo traduzida para o espanhol de Madri não será entendida em outras regiões da Espanha onde se falam outros dialetos do espanhol.

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            Por aí vemos a importância do signo lingüístico (significante/significado). É a base da comunicação humana, simbólica, e nem sempre o significante é sonoro. Os surdos-mudos têm o seu alfabeto e gestos simbólicos convencionais significativos para se entenderem. Os cegos usam um código tateável para lerem e apreciarem livros. Em uma área de trabalho do Windows vemos ícones (significantes gráficos, visuais). Em placas de trânsito vemos também mensagens silenciosas...

            Na conexão Emissor/Receptor através de um Canal passa-se uma Mensagem (assunto geral) por meio de um Código e obtém-se uma resposta (mesmo silenciosa) sobre determinado assunto específico (o Referente), e dessa relação realiza-se funções:

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1 - Função Emotiva: foco no Emissor; 1a. pessoa, subjetiva: Eu estou gostando de ver esse programa.

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2 - Conativa: foco no Receptor; quando se procura persuadir, convencer, visa uma reação no receptor: Vote em mim e nesta cidade todos terão casa decente com saneamento básico e telefone, trabalho, educação, e saúde de qualidade.

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3 - Referencial: Foco no Referente; em assunto específico. É objetiva, é a linguagem aplicada nas ciências, em uma bula de remédio, e no jornalismo a noticiar fatos. Busca apenas informar, esclarecer. Embora possa se saber que o jornalista é uma pessoa, um ser emocional, não sendo possível seja totalmente imparcial na transmissão dos fatos tal como ocorreram. Ex.: Pesquisadores da NASA descobriram água em Marte. (Se o jornalista tem convicção em extraterrestres ou seja um ufólogo amador em seus horários livres poderá emitir uma interferência noticiária jornalística acrescentando: Será que desta vez acharam a sonhada prova de vida além da Terra?)

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4 - Metalingüística: foco no Código. Usa a própria língua para falar ou explicar a língua. Ex.: Para definir ou explicar uma palavra no dicionário, ou ensinar as regras de acentuação das palavras, estamos empregando esta função da linguagem.

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5 - Poética: Foco na Mensagem (o assunto geral). Visa ornamentar ou trabalhar a linguagem para o estético ou polimento literário, entra-se em contato com os sentimentos e emoções e procura-se palavras certas e um modo de ordená-las em efeitos de musicalidade e imagens, enfim, tenta-se comover o leitor com o que sentiu ou...:

 

            Exemplo, de Fernando Pessoa, “Autopsicografia”, quadras de heptassílabos:

 

                        “O poeta é um fingidor.

                        Finge tão completamente

                        Que chega a fingir que é dor

                        A dor que deveras sente.

 

                                   E os que lêem o que escreve,

                                   Na dor lida sentem bem,

                                   Não as duas que ele teve,

                                   Mas só a que eles não têm.

 

                        E assim nas calhas de roda

                        Gira, a entreter a razão,

                        Esse comboio de corda

                        Que se chama o coração.”  (Fernando Pessoa, Agir Editora, p. 40)

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6 - Fática: Foco no Canal. Visa estabelecer e manter o diálogo, iniciando (Bom dia.), confirmando e mantendo (a conversação), terminando (- Tchau-tchau, amigos, fiquem com Deus!)

 *

***

              E R

   (Emotiva,                    Canal (Fática)                      (Conativa)

 subjetiva)            Mensagem (Poética)

                             Código (Metalingüística)

                             Referente (Referencial, objetiva)

***

            - Me liga no fim de semana...  (pronome oblíquo em início de frase?)

            Marcos Bagno assim também o faz, p.9, de Preconceito Lingüístico: Me vali igualmente de tudo o que venho colhendo...

            Os signos como parte do Código Lingüístico, na sua ordenação frasal e usual parece contradizer a fala cotidiana com gramática ensinada da norma-padrão...

            Na p. 11, livro citado, Bagno assim se expressa:

            "Cada vez mais se torna evidente que é preciso analisar a nossa realidade sociolingüística sob três focos:

            1 - o da norma-padrão: isto é, o modelo idealizado de língua "certa" descrito e prescrito pela tradição gramatical normativa - e que de fato não corresponde a nenhuma variedade falada autêntica e, em grande medida, tampouco à escrita mais monitorada;

            2 - o conjunto das variedades prestigiadas, faladas pelos cidadãos de maior poder aquisitivo, de maior nível de escolarização e de maior prestígio sociocultural;

            3 - o conjunto das variedades estigmatizadas, faladas pela imensa maioria da nossa população, seja nas zonas rurais, seja nas periferias e zonas degradadas das nossas cidades, onde vivem os brasileiros mais pobres, com menor acesso à escolarização de qualidade, desprovidos de muitos de seus direitos mais elementares."

            Dá exemplo, p.12: "Quando se trata do imperativo negativo na segunda pessoa do singular (tu), a única forma descrita é do tipo "não fales", "não comas", "não peças", etc. Ora, em nenhum lugar do Brasil, em nenhuma classe social, se usa essa forma do imperativo negativo. (...) o imperativo negativo se faz ou como "não fala", "não come", "não pede", ou como "não fale", "não coma", "não peça". Ninguém, portanto, na fala normal e espontânea (e mesmo na escrita monitorada) usa a forma prevista pela norma-padrão. Por isso, é possível dizer que a norma-padrão não faz parte da língua, se por língua entendermos a atividade lingüística real dos falantes em suas interações sociais."

            p.13: "a prioridade absoluta, no ensino de língua, deve ser dada às práticas de letramento, isto é, às práticas que possibilitem ao aprendiz uma plena inserção na cultura letrada, de modo que ele seja capaz de ler e de escrever textos dos mais diferentes gêneros que circulam na sociedade. (...) todos os aprendizes devem ter acesso às variedades lingüísticas urbanas de prestígio, não porque sejam as únicas formas "certas" de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que ele possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea, ter acesso aos bens culturais mais valorizados e dispor dos mesmo recursos de expressão verbal (oral e escrita) dos membros das elites socioculturais e socioeconômicas".

            Na p. 194: "Consultando a gramática que Pasquale Cipro Neto assina em parceria com Ulisses Infante (Gramática da Língua Portuguesa, Editora Scipione, São Paulo, 1998), encontra-se, às pp. 521-522, a seguinte explicação para o uso supostamente "correto" do verbo custar:

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            "Custar, no sentido de "ser custoso", "ser penoso", "ser difícil" tem como sujeito uma oração subordinada substantiva reduzida. Observe:

            Ainda me custa aceitar sua ausência.

            Custou-nos encontrar sua casa.

            Custou-lhe entender a regência do verbo custar.

            No Brasil, na linguagem cotidiana, são comuns construções como "Zico custou a chutar" ou "Custei para entender o problema" [...]

            Na língua culta, essas construções em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa são rejeitadas. Em seu lugar, devem-se utilizar construções em que surja objeto indireto de pessoa: "Custou a Zico chutar" (= Custou-lhe chutar")."

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            Quero chamar a atenção, aqui, para a seguinte afirmação dos autores: "Na língua culta, essas construções [...] sao rejeitadas". Aqui está um exemplo claro e nítido de uma concepção de sujeito animado, capaz de "rejeitar" alguma coisa. Ora, que língua culta é essa que supostamente rejeita essas construções? Será a língua dos nossos grandes escritores, que sempre serviu de material para o trabalho dos gramáticos normativistas? Basta investigar para descobrir que não é, porque os exemplos de uso do verbo custar com sujeito são mais do que abundantes na nossa melhor literatura:

(1) "Seixas custou a conter-se" (José de Alencar)

(2) "... as moças custavam a se separar" (Clarice Lispector)

(3) "Renato custou a acordar" (Carlos Drummond de Andrade)

(4) "Felicidade, custas a vir e, quando vens, não te demoras" (Cecília Meireles)

            Será que Alencar, Clarice Lispector, Drummond e Cecília Meireles não são bons exemplos de usuários da "língua culta"? Se não é na literatura, quem sabe, então, se recorrermos à imprensa contemporânea? Será que é lá que mora a famosa "língua culta" que rejeita essas construções? Ora, consultando o jornal onde o próprio Pasquale Cipro Neto escreve (Folha de S. Paulo) e onde presta serviços de "consultor de português" (seja isso lá o que for), encontramos:

(5) Quem foi ao show de Maria Bethânia, anteontem à noite, depois de assistir o sóbrio concerto de João Gilberto, custou a crer que estivesse na mesma cidade(22/6/98, pp.5-10).

(6) O técnico colombiano, Hernán Darío Gómez, [...] custou a admitir a superioridade rival (16/6/1998, pp. 4.14).

(7) O nome Kubitschek era complicado de pronunciar, custou a ser assimilado pela fonética eleitoral (21/11/1997, pp.4-3).

            Se lembrarmos que José de Alencar morreu em 1877, fica muitíssimo claro que essa construção está viva e presente na nossa língua há muito mais de um século!"

            E voltando à p.15: "é passada a hora de se produzir uma nova gramática de referência do português brasileiro contemporâneo que venha a substituir as gramáticas normativas que ainda circulam no mercado, eivadas de inconsistências teóricas e de contradições metodológicas, inspiradas em postulados não-científicos e em preconceitos sociais (...) uma nova gramática que descreva e autorize o que já está pacificamente incorporado à atividade lingüística de todos os brasileiros, inclusive dos qualificados de "cultos".

 

Bibliografia:

 

1. RIEGEL, Martin; Trad. de Marcílio Teixeira Marinho e Newton Belém."Iniciação à Análise Lingüística".Rio de Janeiro, Ed. Rio, 1981.

2. HAYAKAWA, S.I.; KRÄHENBÜHL, Olívia (tradutora). "A Linguagem no Pensamento e na Ação". 2a. Edição, São Paulo-Brasil: Livraria Pioneira, 1972.

3. BAGNO, Marcos. "Preconceito Lingüístico". São Paulo, Ed. Loyola, 2008.

4. Apostila Claretiano de Lingüística I.

5. COTRIM, Gilberto. "Fundamentos da Filosofia". 4a. Edição, São Paulo, Ed. Saraiva, 1989.

6. BUENO, Silveira. "Dicionário Escolar da Língua Portuguesa". 11a. Edição, São Paulo,Ed. MEC-FENAME, sem ano.

 

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