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uma historieta polissêmica... PDF Imprimir
Escrito por Sergio Carneiro de Andrade   
Dom, 25 de Outubro de 2009 09:03
Isso é um eu morro, um morro...
(uma historieta polissêmica)
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- Compadre, estamos subindo e estamos na metade..., ufa!..., haja fôlego, esse monte é um morro, morro antes de chegar lá em cima, compadre!
*
- Ôxenti, ele é um cabra! Um cabra macho que só se vê se teme!!
- E o queijo do leite da sua cabra que me prometeste mês passado, então, vai sair? Só de pensar, é água na boca! Ô queijo bom!!
- Morro de saudade de voltar à minha terra!... Subir no morro da fazenda e ver longe aquela imensidão de terras...
E foi chegando o cabra em trajes Virgulino cangaceiro...
- Que falam aí, é de Lampião?! E que me olhas seu homem barata! Tu não é macho não, é uma barata que se pisa feito capacho, e se mata quando se quer. Cabra macho sou eu, Zeca Diacho Virgulino, em Sucupira todos me teme! E se quiser ver, puxo a peixeira!
- Homem?
- E duvida!?
- Só é homem quem vence a gincana municipal de Morro Grande, e vai ser nesse domingo.
- Então vou lá me inscrevê. Sou macho e forte e topo qualquer parada!
- É em dupla... Pra vencê há de levar junto um velho...
- Um velho?... E onde encontro um velho forte assim como eu?...
- Tem o Osmarino Fabiano, rijo como uma rocha, e como ocê, metido a grande valente e caçador de onças...
- Osmarino!? Bem lembrando, vou lá buscá e vámu vencê!
(...)
- Compadre, estamos subindo e estamos na metade..., ufa!..., haja fôlego, esse monte é um morro, morro antes de chegar lá em cima, compadre!
- Ô, velho, vê se anda, temos que chegar lá em cima antes do anoitecer!
- Calma, seu menino, minhas pernas estão amarrando, e essa subida me mata, eu morro antes que chegue lá.
- Larga de moleza, homem, morre nada, tu é rijo feito rocha, morro eu de te esperar nessa vagareza! Tamo atrasado, não vê!
- Então vá na frente..., e avise que o velho tá chegando..., ufa!, já me farta até ar...
- Gingana de prêmio bom, de se vê e pôr no bolso. Vitória é certa, falta pouquinho pouquinho. Já vejo mesmo o que vou comprar, ter para me agradar... Então vá, levante, tenha fibra, cabra, força!
- Não posso..., nem passo mais sinto em dar, vou parar, descansar um tantinho..., tomar..., tomar fôlego...
- Deixa de ser homem froxo e molenga, sô! Vámu, o prêmio só vão dá se chegar nóis dois lá no alto e na hora certa: támu na frente, não vê!?, já deixámu outras dupla pra trais...
- Então me leve, carregue um tanto esse velho nos braços... Homem dos diachos, tu é forte...
- Se te carrego nem eu chego!, morro antes de ver nossa vitória..., e o prêmio... Ande, vámu, já tô vendo outra dupla alcançando nóis! //
*
E /morro/ pode ser algo totalmente diferente do que pensávamos... Em www.fflch.usp.br/dlcv/lport/site/images/arquivos/FLP2/Biderman1998.pdf: //No livro Como aprendi o português, e outras aventuras, Paulo Rónai (famoso intelectual e tradutor de origem húngara) relata um caso emblemático sobre os descaminhos da tradução. Ele estava traduzindo poemas do português para o húngaro. Num dado momento, Rónai tentava entender a alusão aos morros cariocas nos poemas de cunho social que estava traduzindo. Consultando por correspondência um jovem poeta brasileiro, o referido poeta deu-lhe uma lista de sinônimos para a palavra morro, a saber: "colina, outeiro, etc." Ora, Rónai continuava não entendendo. Depois de ter feito várias consultas ao seu correspondente por carta, ele finalmente chegou ao valor correto da palavra morro naquele contexto específico : /conjuntos de habitações populares toscamente constituídas e desprovidas de recursos higiênicos/. Esse fato documentava uma situação oposta ao meio ambiente de sua cidade - Budapeste. Aí moravam os ricos em palacetes construídos nos morros da cidade, justamente o oposto do Rio de Janeiro onde morro é sinônimo de favela. Portanto, embora morro possa ser traduzido por seu equivalente em húngaro ao nível da denotação, ao nível da conotação a equivalência não existe, confirmando o relativismo lingüístico. //

A palavra /Morrer/ vem do latim /mori/ que em espanhol fica /morir/, em italiano /morire/, em francês /mourir/, e em português /morrer/. E quanto a /morro/ como monte, colina, de onde vem? Informa alguma coisa o radical ou raiz? Que traço de sentido liga o substantivo morro e o verbo morro?

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